Idéias Estranhas


Publicações Externas

Gostei tanto que resolvi publicar aqui. Achei três vezes interessante. É a vida, não é minha gente? É bonita e é bonita, e é reflexiva...

O poder e o sagrado

É o sagrado que mantém os homens voluntariamente escravos, e por isso a propriedade privada pode ficar livremente sob o domínio daqueles que se colocam no lugar de Deus. É sabido de muito que os primeiros mercados foram sagrados, que os primeiros bancos foram templos e que a primeira emissão de dinheiro foi feita pelos sacerdotes ou pelos reis-sacerdotes. Dessa forma, ficam mais claras as relações entre o dinheiro, o sagrado e o poder.

A derradeira categoria da economia é, pois, o poder, mas ela não é uma categoria econômica. É uma categoria do Sagrado, em primeiro lugar. O privilégio social nasceu a partir da queda do homem, quando ele começou a trabalhar. E a trabalhar para um senhor e a se auto-impor os seus grilhões para expiar a sua culpa. E são as lutas pelo poder, portanto, que fazem as repressões sobre o corpo humano, e que, dessa forma, o fabricam.

A primeira dimensão do poder é o dinheiro. Mas este é, antes de tudo, inútil. Para entendermos isso, seria preciso que Marx tivesse construído uma ciência dos valores de uso, dos valores essenciais ao ser humano, e não só dos valores de troca, dos excedentes.

Em decorrência de que só os valores excedentes do uso se transformam em dinheiro, o desejo de ter mais do que se necessita alterou o valor das coisas e, portanto, a distinção entre o necessário e o supérfluo. Por isso a neurose está relacionada com o excedente econômico. O luxo, afirmam tanto Thoreau como Platão, é o pior dos empobrecimentos, porque é um empobrecimento do ser. A tendência a produzir o excedente no seu princípio foi fruto da coerção da classe dominante, que se apropria dele. E esta é a que menos desfruta daquilo de que se apropria. È da sua competição que nasce o progresso tecnológico. Por um lado, a classe dominante erotiza a morte quando compete entre si indefinida e ilimitadamente. Por outro lado, o trabalho erotiza a morte quando trabalha compulsivamente.

E assim se pode entender a busca do dinheiro como uma analidade sublimada: é tomar excremento por alimento, mas alimento que sempre continua excremento; é tomar a poeira por divindade, o fantasma por posse, o pesadelo por vida. Desse modo, o complexo de superfluidade invadiu e corrompe o consumo humano: o complexo anal regride para o oral e se funde com ele. Daí a exigência interminável do consumidor de bens de que não precisa, mas também da demanda em que o alimento assume forma de superfluidade, isto é, sofisticação.

Essa perversão neurótica das necessidades tem seu embrião nas sociedades arcaicas, mas é em nossa civilização de poder que toma corpo. O que a elegante lei da oferta e da procura significa é o grotesco de um animal que confundiu excremento com alimento e não sabe disso, e que, como na sexualidade infantil, não procura alvo concreto algum, a aquisitividade não tem nenhum limite. Daí a publicidade ter o poder de criar desejos supérfluos e irracionais. É ela que alimenta a economia de mercado. Se os homens só consumissem o essencial, a sociedade de consumo entraria em colapso.
Com a transformação daquilo que não tem valor em preço, bem como daquilo que não se come em alimento, o ser humano adquire uma alma, isto é, não vive só de pão. Passa a ser o animal que sublima. A tendência a sublimar é a mesma que leva a produzir o excedente econômico.

Marx, para explicar o progresso tecnológico e a historicidade do homem, atribui a ele uma estrutura psicológica que nunca se satisfaz. No homem, uma necessidade gera sempre outra necessidade, o que faz dele um ser eternamente inquieto e infatigável, e, portanto, sem possibilidade alguma de alcançar a felicidade, eternamente infeliz. E é ele mesmo que afirma, no segundo volume de O capital, que, se à acumulação se substituir o gozo, o capitalismo explode. Só que Marx, ao desconhecer o inconsciente, é incapaz de orientar os seres humanos para o gozo! Por isso, quando todas as igrejas colocam o pecado supremo, o "pecado sem nome", na sexualidade e suas transgressões, têm muito mais razão do que pensamos. Para quem santifica o poder econômico, o maior pecado é, sem dúvida alguma, o gozo.

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Escrito por José, o imblogável às 13h11
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